CFM publica regra que reconhece o cardiointensivismo como área de atuação da Medicina Intensiva e da Cardiologia

O Conselho Federal de Medicina (CFM) publicou na quarta-feira (28), no Diário Oficial da União (DOU), a Resolução CFM nº 2.472/2026, que reconhece o Cardiointensivismo como área de atuação médica. Com isso, a norma contempla expressamente a Medicina Intensiva e a Cardiologia como especialidades de acesso à nova área.

Assim, quem concluiu Residência Médica específica em Cardiointensivismo ou foi aprovado em exames das respectivas sociedades terão essa certificação. Cumpridas essas etapas, esse médico poderá pedir o Registro de Qualificação de Especialista (RQE) nesta área, podendo se anunciar e divulgar seu trabalho como cardiointensivistas.

No entanto, embora desejável, não será obrigatória a certificação na área de Cardiointensivismo  para a atuação do Especialista em Medicina Intensiva como Responsável Técnico (RT) das Unidades Coronarianas.

Em nota pública, a Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) destacou o esforço que levou à decisão, envolvendo ainda a participação da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC),  Associação Médica Brasileira (AMB) e CFM, que culminou na  Resolução nº 2.472/2026. Esse texto atualiza a relação de especialidades médicas e áreas de atuação reconhecidas no Brasil, além das formas de obtenção dos respectivos títulos para fins de Registro de Qualificação de Especialista (RQE).   

ACESSE A NOTA DA AMIB AOS ASSOCIADOS

O Cardiointensivismo é a área voltada ao cuidado de pacientes com doenças cardiovasculares graves que necessitam de acompanhamento intensivo, incluindo situações que exigem monitoramento contínuo e intervenções especializadas. A inclusão formal da área amplia o reconhecimento da atuação médica dedicada ao atendimento de pacientes críticos com condições cardiovasculares.

ESPECIALIDADES E ÁREAS – Com a atualização, o país passa a reconhecer 55 especialidades médicas e 64 áreas de atuação. No caso do Cardiointensivismo, a decisão representa uma conquista alcançada pela construção de uma solução conjunta  envolvendo AMIB, SBC, AMB e CFM.

O documento completo disponível no Diário Oficial da União traz a relação atualizada das especialidades e áreas de atuação, além das regras para obtenção das respectivas titulações. A consulta à íntegra da norma é recomendada para médicos, residentes e candidatos que desejam compreender os requisitos aplicáveis à formação e ao registro profissional.

ACESSE AQUI A ÍNTEGRA DA RESOLUÇÃO CFM 2.472/2026

Ao longo do processo que levou à aprovação da Resolução CFM 2.472/2026, a AMIB defendeu o reconhecimento da formação e das competências dos médicos intensivistas no cuidado ao paciente cardiovascular crítico. Esse esforço integra um trabalho contínuo da Associação pela valorização profissional e por melhores condições de atendimento nas unidades de terapia intensiva (UTIs).

O presidente da AMIB, Cristiano Franke, afirma que “qualificar a assistência exige formação sólida, equipes adequadamente dimensionadas, infraestrutura, acesso a tecnologias e condições dignas de trabalho, com segurança para pacientes e profissionais”, assim como a valorização de quem atua na linha de frente das UTIs.

Na nota divulgada aos associados e à população, a AMIB afirma que o reconhecimento do Cardiointensivismo fortalece a integração entre a Medicina Intensiva e a Cardiologia, o que favorece uma assistência especializada e integral ao paciente grave. Para Marcelo Maia, presidente da Comissão de Ética e Defesa Profissional da AMIB, “a implementação dessa área de atuação sinaliza o reconhecimento de competências, mediante critérios transparentes de formação e certificação, e valoriza a segurança e a qualidade no atendimento nas UTIs”.

Além da definição do Cardiointensivismo como área de atuação médica, a Resolução CFM nº 2.472/2026 ainda inclui a Medicina Marítima e Hiperbárica na mesma categoria, assim como reduz o tempo de formação em Medicina Legal e Perícia Médica de três para dois anos e inclui a Genética Médica entre os pré-requisitos para Medicina Paliativa.

OUTRAS MUDANÇAS – Pela regra do CFM, as duas áreas de atuação têm duração prevista de um ano em Programa de  Residência Médica. No caso específico da Medicina Marítima e Hiperbárica, a norma estabelece como pré-requisito a conclusão de residência médica em Medicina do Trabalho ou Medicina do Tráfego, ou a obtenção do respectivo título de especialista com RQE.

Já a Genética Médica passa a ser pré-requisito para Medicina Paliativa. Além dessa especialidade, a lista contempla Anestesiologia, Cirurgia de Cabeça e Pescoço, Cirurgia Oncológica, Clínica Médica, Geriatria, Mastologia, Medicina de Família e Comunidade, Medicina Intensiva, Neurologia, Nefrologia, Oncologia Clínica e Pediatria.

Embora a resolução tenha entrado em vigor na data de sua publicação, em 28 de outubro de 2026, isso não significa que os editais de residência médica já publicados tenham sido automaticamente modificados. Em caso de dúvidas, os interessados devem procurar os organizadores de certames em andamento.

SEGURANÇA E ORGANIZAÇÃO – A história do Cardiointensivismo como área de atuação médica tem sua origem em 2015, com a publicação da Resolução CFM nº 2.135, que autorizava médicos especialistas em Cardiologia a exercer a responsabilidade técnica pelas Unidades Coronarianas. Essa medida suscitou discussão sobre a segurança e a organização da assistência nessas unidades.

Embora dedicadas ao atendimento de pacientes com doenças cardiovasculares graves, as UTIs Coronarianas recebem pacientes que frequentemente apresentam, ou desenvolvem durante a internação, também complicações respiratórias, renais, neurológicas, infecciosas e metabólicas, exigindo abordagem abrangente do paciente crítico, própria da formação em Medicina Intensiva.

A experiência assistencial evidenciou que a autorização estabelecida pela Resolução CFM nº 2.135/2015 não contemplava em sua extensão a complexidade do cuidado do paciente grave. A AMIB sustentou esse entendimento ao longo de sucessivas rodadas,  defendendo que a especificidade cardiológica não poderia prescindir da competência abrangente necessária à condução da assistência.

Após um longo processo de debates, o CFM acolheu esse entendimento e revogou a Resolução nº 2.135/2015, restabelecendo a coerência com o princípio de que a responsabilidade técnica das unidades de tratamento intensivo deve ser exercida por médico especialista em Medicina Intensiva, nos termos da regulamentação aplicável. Essa decisão representou um marco decisivo.

Com a superação dessa controvérsia, foi aberto caminho para uma outra solução: a criação da área de atuação em Cardiointensivismo, concebida para integrar as competências da Cardiologia e da Medicina Intensiva em formação específica, estruturada e orientada à qualidade assistencial.

“O Cardiointensivismo materializa a preocupação com a segurança do paciente e a cooperação entre especialidades. Com o seu reconhecimento, é feita a conciliação entre o cuidado cardiovascular e tratamento intensivo, sempre em benefício dos pacientes”, concluiu Marcelo Moock, da Comissão de Ética e Defesa Profissional da AMIB.

Avaliação das UTIs por médicos revela distância na percepção sobre a qualidade de serviços públicos e privados

A qualidade de Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) no Brasil não é unanimidade entre os médicos que atuam nestes serviços. Apesar de que, na média, os indicadores são positivos, há distorções significativas na avaliação dos profissionais a respeito desse tipo de atendimento nas redes do Sistema Único de Saúde (SUS) e particular, que inclui hospitais vinculados a planos de saúde. Na maioria das vezes, as notas positivas são duas vezes maiores nas unidades privadas do que nas públicas. Já as notas negativas, chegam a ser até quatro vezes maiores nas unidades públicas com relação às privadas.

Essa diferença foi expressa por 2.338 médicos que atuam nesta assistência de alta complexidade que foram ouvidos dentro do Inquérito Nacional sobre a Força de Trabalho Médica nas UTIs Brasileiras, realizado pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB), com o apoio do Conselho Federal de Medicina (CFM). Eles responderam questionário no qual deram notas de 0 a 5 para itens considerados essenciais ao funcionamento das unidades, como infraestrutura, disponibilidade de leitos e medicamentos, nível de especialização da equipe, fluxos de paciente, protocolos, entre outros.

Analisadas em bloco, essas menções ajudam a visualizar os problemas que afetam o atendimento a partir da ótica de quem é responsável pelo cuidado dos pacientes graves. Para a AMIB, os resultados reforçam a necessidade de que políticas públicas de saúde tratem a estruturação das UTIs como prioridade em múltiplos aspectos, e não apenas como expansão do número de leitos.

“A diferença da percepção entre os médicos dos setores público e privado tem origem na capacidade de resposta que as equipes encontram para atender um paciente crítico. Isso envolve leito disponível, mas também remédios em mãos e protocolos bem estabelecidos para cada momento da assistência, entre outros itens. A redução dessa desigualdade estrutural precisa entrar na agenda de prioridades da saúde pública brasileira”, enfatiza Cristiano Franke, presidente da AMIB.

Diagnóstico – A entidade pretende levar o diagnóstico a gestores públicos e privados, bem como a autoridades de áreas de fiscalização e controle, além de defender o atendimento às recomendações feitas pelo Inquérito Nacional sobre a Força de Trabalho Médica das UTIs Brasileiras. Eventuais mudanças terão impacto em 43.901 leitos de UTI distribuídos pelo país, sendo 34.927 destinados a adultos e 8.974 à pediatria e neonatologia, conforme cálculo da AMIB.

Na análise dos números apurados fica evidente a diferença detectada entre os serviços. Por exemplo, apenas 22,7% dos médicos entrevistados consideram que a rede de UTIs do Sistema Único de Saúde (SUS) possui disponibilidade totalmente adequada de medicamentos essenciais ao manejo dos pacientes. Esse índice sobe para 57,7% com relação aos serviços particulares ou vinculados aos planos de saúde.

Por outro lado, quando analisadas as avaliações negativas, a situação da oferta de medicamentos nos serviços da rede pública foi avaliada como inadequada ou totalmente inadequada por 16,1% dos médicos. No setor privado o percentual cai para 3,8%.

A tendência se mantém na avaliação sobre a suficiência de leitos. Um índice de 24,1% dos entrevistados atribuiu a nota máxima aos serviços públicos de UTI em relação a esse quesito. Já com respeito às unidades privadas ou de planos de saúde, a avaliação foi favorável para 51,4%. No caso de disponibilidade e acesso a protocolos de atendimento e de conduta clínica, a rede SUS recebeu nota máxima de 23,1% dos que participaram do inquérito, enquanto o setor privado ganhou avaliação superior de 40,2%.

Pela perspectiva das notas mais baixas (0, 1 e 2), 32,6% dos médicos avaliaram a disponibilidade de leitos no SUS ruim e 27,4% atribuíram as notas mínimas aos protocolos de atendimento. Na rede privada, essas avaliações mínimas foram dadas por 7,7% e 14,3% dos médicos respectivamente.

Esse padrão se repetiu em 12 dos 13 aspectos avaliados pelos profissionais que atuam em UTIs em 26 estados e no Distrito Federal. A única exceção, em que a percepção dos entrevistados foi bastante próxima, independentemente do segmento em que prestam serviços (público ou privado), foi em relação às tarefas administrativas e burocráticas.

A pesquisa também identificou disparidade na percepção sobre a presença de equipe multiprofissional especializada: 39,2% dos médicos avaliaram esse item com nota máxima no setor privado, contra 23% no setor público. Enquanto as notas mínimas foram atribuídas por 24,8% dos médicos para o setor público e por 13,8% para o privado.

Quanto à percepção sobre presença de enfermeiros com formação específica em terapia intensiva, a proporção positiva foi de 25,1% para o privado e 16,9% para o público. Já a negativa alcançou 37,2% para os serviços SUS e 26,4% para os serviços particulares ou de planos.   

“Não basta fazermos apenas o diagnóstico da diferença de condições entre as UTIs públicas e privadas brasileiras, é necessário traçar estratégias para agir e modificar esse cenário. O inquérito aponta claramente um caminho: investir em modernização das unidades públicas, com acesso equitativo a tecnologias de monitoramento e suporte à vida. Precisamos reduzir essa distância sem esperar que o paciente pague o preço”, afirma Franke.

Protocolo e burocracia – Além da infraestrutura física e composição das equipes multidisciplinares, o levantamento evidencia também uma lacuna entre os setores público e privado nos processos, protocolos e dinâmicas de trabalho.  Os fluxos de gerenciamento de pacientes entre os diferentes setores do hospital foram avaliados, no setor privado, com nota máxima por 26,5% dos médicos, mais que o dobro dos 11,1% registrados no setor público.

A interconsulta com especialistas seguiu padrão semelhante: 36,3% no privado contra 15,4% no público. Quanto à interação entre as equipes de diferentes áreas do hospital, a nota máxima foi de 30,7% dos médicos para o setor privado e de apenas 14,5% para o setor público. Por fim, em relação aos protocolos de passagem dos plantões, que garantem a continuidade do cuidado entre os turnos, 27,8% dos profissionais deram nota máxima para as unidades privadas. Nas unidades públicas, apenas 14,5% dos profissionais atribuíram o maior valor.

Para a AMIB, esses processos não são apenas uma rotina administrativa, eles funcionam como parte da estrutura assistencial da UTI, sustentando decisões rápidas e coordenadas diante de pacientes com múltiplas disfunções orgânicas, um dos principais traços que caracterizam o ambiente de terapia intensiva.

“Para além dos investimentos na infraestrutura e nos recursos humanos das UTIs, em especial da área pública, fica evidente a necessidade de se integrar a prática assistencial e padronizar protocolos clínicos. Digitalizar processos burocráticos, padronizar fluxos de informações e fortalecer a integração das equipes libera mais tempo dos profissionais de saúde para o cuidado com o paciente”, conclui Franke.  

Os resultados reforçam, de acordo com a AMIB, a necessidade de que políticas públicas de saúde tratem a estruturação das UTIs como prioridade orçamentária, e não apenas como expansão do número de leitos. A entidade pretende levar o diagnóstico a gestores públicos e autoridades de saúde como parte do conjunto de recomendações do Inquérito Nacional sobre a Força de Trabalho médica das UTIs Brasileiras.

Burnout, humanização e qualidade das UTIs marcam participação da AMIB em congresso europeu

15.10.2026

A saúde mental dos médicos intensivistas, os avanços da pesquisa clínica e a humanização da assistência estiveram entre os temas discutidos em duas sessões da Associação de Medicina Intensiva Brasileira – AMIB na tarde desta terça-feira (13.10), durante o LIVES 2026, congresso da European Society of Intensive Care Medicine (ESICM), realizado em Lisboa, Portugal. As apresentações reuniram estudos e experiências brasileiras voltados à melhoria da assistência aos pacientes críticos.

Um dos destaques foi a saúde mental dos profissionais que atuam nas unidades de terapia intensiva (UTIs). O presidente do Conselho Consultivo da AMIB, Ederlon Rezende, apresentou resultados do Inquérito Nacional sobre a Força de Trabalho Médica das UTIs Brasileiras, desenvolvido pela AMIB em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM). Divulgado em setembro, o levantamento revelou que quase metade dos médicos que atuam nas UTIs brasileiras apresenta alto nível de esgotamento emocional, além de identificar problemas relacionados às condições de trabalho desses profissionais.

A apresentação integrou a sessão “Medicina Intensiva brasileira: dados, evidências e pessoas”, dedicada à produção científica nacional e aos desafios contemporâneos da especialidade. “Foi muito bom mostrar os resultados do nosso recente estudo sobre a prevalência de burnout em intensivistas brasileiros. É um estudo importante, que proporcionou uma boa discussão sobre um assunto cada vez mais relevante e que preocupa os intensivistas em todo o mundo”, afirmou Ederlon.

Segundo o médico, o debate reforçou a necessidade de enfrentar os fatores relacionados à organização do trabalho, em vez de concentrar as estratégias de prevenção do burnout exclusivamente em características individuais dos profissionais. “Hoje sabemos que cuidar das condições de trabalho tem mais importância até do que questões individuais, como qualidade de vida e resiliência, que durante muito tempo foram consideradas as principais formas de enfrentar o burnout”, explicou.

Para Ederlon, a troca de experiências entre pesquisadores de diferentes países também pode contribuir para a construção de respostas conjuntas ao problema. “Esse tipo de discussão abre possibilidades de colaboração internacional e de ações de alcance mundial para chamar a atenção da sociedade para a importância de cuidar de quem cuida do paciente grave”, acrescentou.

CIÊNCIA, HUMANIZAÇÃO E QUALIDADE – Outra sessão temática da AMIB, intitulada “Para além da sobrevivência: lições da Medicina Intensiva brasileira”, reuniu apresentações sobre ciência translacional, humanização do cuidado e avaliação dos resultados das UTIs. A pesquisadora Patricia Rocco abordou a contribuição da ciência translacional para aproximar as descobertas produzidas em laboratório das necessidades dos pacientes críticos, destacando a relação entre pesquisa experimental e prática assistencial.

O presidente da AMIB, Cristiano Franke, apresentou a palestra Humanizing Intensive Care: caring beyond survival, dedicada à humanização da Medicina Intensiva e à necessidade de considerar outras dimensões do cuidado aos pacientes graves, além da sobrevivência.

Na sequência, o médico Marcio Soares abordou a importância dos dados para a melhoria da assistência, desta vez com a palestra Brazilian ICU Registry: measuring what really matters. A apresentação destacou o desempenho do Programa UTIs Brasileiras e a utilização de registros clínicos para acompanhar indicadores de qualidade, avaliar os resultados das UTIs e orientar decisões relacionadas à gestão e à assistência.

AMIB apresenta experiências brasileiras em pesquisa e transplantes durante congresso europeu de Medicina Intensiva

A atuação da Associação de Medicina Intensiva Brasileira – AMIB no desenvolvimento da pesquisa científica e na formação de profissionais de saúde foi apresentada durante o LIVES 2026, congresso da European Society of Intensive Care Medicine (ESICM), realizado de 10 a 14 de outubro, em Lisboa, Portugal. Em uma sessão conjunta das duas sociedades médicas, o presidente da AMIB, Cristiano Franke, e a diretora-presidente futura, Flávia Machado, compartilharam experiências brasileiras nas áreas de doação e transplantes de órgãos e pesquisa em Medicina Intensiva.

A participação brasileira destacou iniciativas desenvolvidas pela AMIB ao longo das últimas décadas para fortalecer a produção científica, ampliar a participação das unidades de terapia intensiva em pesquisas e qualificar os profissionais que atuam no atendimento a pacientes críticos.

Cristiano Franke apresentou a experiência da entidade no desenvolvimento de iniciativas educacionais e no apoio ao Sistema Nacional de Transplantes (SNT), destacando uma trajetória de 15 anos de cooperação com o Ministério da Saúde, secretarias de saúde e centrais estaduais de transplantes.

Nesse período, segundo ele, mais de 5 mil profissionais de saúde foram capacitados pela AMIB em atividades relacionadas ao processo de doação e transplantes de órgãos. As ações incluem cursos, atividades on-line, divulgação científica e iniciativas de educação continuada, dirigidas especialmente aos profissionais que atuam nas UTIs.

“Tive a oportunidade de compartilhar a experiência da AMIB em parceria com o SNT e as ações desenvolvidas para contribuir com o crescimento dos transplantes no nosso País. São 15 anos de trabalho conjunto, com atividades educacionais e científicas que ampliam a preparação dos profissionais de saúde para atuar nesse processo”, explicou Franke.

Ele ressaltou que a capacitação das equipes de terapia intensiva contribui para a identificação de potenciais doadores e para a organização dos procedimentos necessários à doação de órgãos, etapas que dependem de profissionais preparados e da articulação entre diferentes serviços de saúde.

Segundo o presidente da AMIB, o trabalho desenvolvido pela entidade busca ampliar as oportunidades de transplante e reduzir as mortes de pacientes que aguardam um órgão. “Queremos que as pessoas saiam da lista de espera porque receberam um órgão e tiveram a possibilidade de melhorar sua saúde e qualidade de vida, e não porque faleceram enquanto aguardavam um transplante”, afirmou.

PESQUISA E QUALIFICAÇÃO – Na sequência, a diretora-presidente futura da AMIB, Flávia Machado, apresentou os desafios da pesquisa em Medicina Intensiva no Brasil e as iniciativas da entidade para criar condições favoráveis ao desenvolvimento de estudos científicos. Entre os temas abordados estiveram as desigualdades regionais, a disponibilidade de leitos de terapia intensiva, a formação dos profissionais que atuam nas UTIs e as dificuldades enfrentadas pelos pesquisadores brasileiros, como limitações de financiamento, infraestrutura e oportunidades de colaboração internacional.

A especialista destacou a estrutura construída pela AMIB para conectar profissionais, instituições e unidades de terapia intensiva, com o objetivo de ampliar a capacidade nacional de produção científica.

“Tivemos a oportunidade de mostrar todas as condições que a AMIB tem criado ao longo das últimas décadas para que a pesquisa brasileira floresça. Falamos sobre a força das nossas regionais, a participação dos associados, as atividades de treinamento e os projetos que ajudam a organizar e fortalecer a pesquisa no país”, afirmou.

Um dos exemplos citados foi o Programa UTIs Brasileiras, iniciativa que reúne informações sobre unidades de terapia intensiva e apoia ações voltadas à qualidade assistencial. Segundo Flávia, aproximadamente metade dos leitos de UTI do país está vinculada a unidades participantes do programa. A apresentação também destacou a certificação das UTIs como instrumento de reconhecimento da qualidade dos serviços.

“A comunidade de terapia intensiva brasileira tem conseguido produzir ciência de alta qualidade, e a AMIB contribui para isso ao conectar pessoas, instituições e oportunidades de pesquisa”, destacou. Flávia também defendeu a necessidade de transformar as redes de colaboração existentes em uma estrutura nacional permanente de pesquisa, capaz de ampliar a participação de diferentes regiões e garantir continuidade aos projetos científicos.

A sessão conjunta também contou com apresentações de Pedro Póvoa, de Portugal, sobre iniciativas e oportunidades de formação em Medicina Intensiva, e Marlies Ostermann, do Reino Unido, que abordou a doação de órgãos e o apoio às famílias. Os debates foram moderados pelos brasileiros Patricia Rocco, ex-presidente da AMIBNet, e Adriano José Pereira, médico intensivista do Hospital Israelita Albert Einstein.

Teste de Progresso da AMIB atinge marca inédita em 2026 com mais de mil participantes

O número de médicos em formação em Medicina Intensiva que participaram do Teste de Progresso (TP), promovido pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira – AMIB, bateu recorde. A prova, aplicada no último domingo, 27 de setembro, contou com a participação de 1.100 médicos de todo o Brasil, crescimento de 15% em relação a 2025.

Realizado há quatro anos pela AMIB, o Teste de Progresso tem como objetivo avaliar o desempenho do médico ao longo do Programa de Especialização em Medicina Intensiva – PEMI AMIB ou da Residência Médica em Medicina Intensiva – REMI MEC.

“É um número recorde e demonstra o crescimento da especialidade, com participação expressiva dos residentes. A iniciativa é importante tanto para a autoavaliação dos médicos em formação quanto para que os coordenadores dos serviços possam avaliar seus programas”, afirma o presidente da AMIB, Cristiano Franke.

“Para a nossa sociedade, também permite ter uma visão mais ampla de como está a formação dos intensivistas em todo o Brasil, o que é extremamente importante. Além disso, nos orgulha muito a adesão porque mostra a relevância dessa iniciativa e reforça a residência médica como principal via e padrão-ouro para a formação do especialista em Medicina Intensiva”, complementa Franke.

Para a diretora e presidente futura da AMIB, Flávia Machado, a participação expressiva é um marco importante para a Medicina Intensiva. “Ultrapassar mil participantes no Teste de Progresso mostra a consolidação de um trabalho de aproximação entre os médicos em formação e a AMIB. Queremos que eles se sintam representados pela Associação e saibam que estamos ao lado deles em um objetivo comum: ampliar a presença de médicos intensivistas nas UTIs brasileiras”, afirma.

Na avaliação do presidente da Comissão de Formação do Intensivista da AMIB, Bruno Besen, a seriedade do trabalho formativo da Associação é um diferencial nesse processo. “O total de inscritos e de médicos em formação participantes do teste demonstra a relevância e a seriedade do trabalho da AMIB. Nossa meta é alcançar o maior número possível de médicos que se especializam em Medicina Intensiva em todo o país e contribuir, por meio dessa formação, para a qualificação da especialidade”, destaca.

TERMÔMETRO DE QUALIDADE – Além de permitir o acompanhamento do desempenho individual, o Teste de Progresso oferece informações para supervisores de residência e de programas de especialização credenciados pela AMIB. “À medida que ampliamos o acesso à formação em Medicina Intensiva, também precisamos acompanhar a qualidade desse processo. O Teste de Progresso nos permite conhecer a evolução dos médicos em formação e identificar, de forma objetiva, os pontos que demandam maior atenção”, observa Besen.

De acordo com ele, investir na formação e identificar precocemente os aspectos a serem aprimorados permite agir na origem de eventuais problemas. “Formar especialistas cada vez mais preparados é uma das maneiras mais consistentes de contribuir, ao longo do tempo, para uma Medicina Intensiva de maior qualidade em todo o Brasil”, afirma.

PROJEÇÃO – Segundo Bruno Besen, com a ampliação do número de vagas de residência médica em Medicina Intensiva, a estimativa é que, em 2028, o Brasil tenha mais de 3 mil médicos em formação na especialidade por ano. A projeção considera a abertura de novas residências em Medicina Intensiva iniciadas em 2026.

AMIB fortalece diálogo com Ministério da Saúde em agenda para qualificação das UTIs e melhora na remuneração do setor

O Ministério da Saúde acenou com uma possível solução, em curto prazo, para a qualificação dos serviços de terapia intensiva, com melhoria no financiamento, conforme complexidade e resultados das unidades. Durante reunião no Departamento de Atenção Hospitalar, Domiciliar e de Urgência (DAHU), o diretor da área, Fernando Figueira, informou que há avanços nas discussões sobre modelos de remuneração baseados em valores e dados.

Segundo ele, a intenção é elaborar, até o fim do ano, uma fórmula que aponte “mecanismos que permitam avaliar cenários e indicadores das UTIs e estabelecer critérios para aprimorar a remuneração das unidades a partir da qualidade do trabalho desenvolvido”. Figueira atribuiu esse avanço ao diálogo que o Governo tem mantido com a Associação de Medicina Intensiva Brasileira – AMIB, por meio de sua diretoria. “Essa abertura tem trazido bons resultados para o sistema”, acrescentou.

Evolução das UTIs – Na reunião no DAHU, na terça-feira (22), em Brasília (DF), o foco das discussões recaiu sobre a evolução das Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) no país na perspectiva de sua qualificação, financiamento, estrutura e composição de equipes. Além de qualificar o trabalho realizado, o grupo está preocupado em encontrar formas de ampliar o acesso à assistência nesse nível de complexidade.

Durante a rodada, Ederlon Rezende, presidente do Conselho Consultivo da AMIB, apontou a relevância de que as discussões sejam feitas com base em indicadores e com foco no aperfeiçoamento das unidades. Neste sentido, defendeu que os dados ajudam a fazer o diagnóstico de situação. “Precisamos olhar para as diferentes realidades das UTIs brasileiras e possuir informações que permitam qualificar a assistência e identificar os principais desafios”, afirma.

Diálogo – O presidente da AMIB concordou com essa posição e ressaltou a urgência de soluções que tragam melhorias, em vários aspectos, sempre com foco no cuidado oferecido ao paciente grave. Para Cristiano Franke, o diálogo com o Ministério da Saúde é necessário, pois, permite a construção conjunta de estratégias para qualificar as UTIs e ampliar as condições de atendimento na alta complexidade de forma estruturada.

No mesmo dia, os representantes da AMIB participaram de outros encontros em Brasília. Levaram suas preocupações e propostas para o Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Saúde (CONASS), onde apresentaram resultados do Inquérito sobre a Força de Trabalho nas UTIs, e estiveram no Sistema Nacional de Transplantes (SNT) para falar sobre novos projetos de capacitação na área.

Além de Cristiano Franke e Ederlon Rezende, estavam na comitiva da AMIB o diretor-presidente da Comissão de Ética e Defesa do Exercício Profissional, Marcelo Maia; e o médico intensivista e membro do Comitê de Doação e Transplantes da AMIB, Joel de Andrade.

AMIB e SNT avançam rumo à continuidade de projeto que fortalece a política de doação e transplante de órgãos no país

Uma comitiva da Associação de Medicina Intensiva Brasileira  – AMIB foi à Brasília, na terça-feira (22), para tratar da continuidade de parceria institucional que tem permitido a capacitação de médicos e outros membros de equipes de saúde para atuar nos processos de doação e transplante de órgãos.

O trabalho tem sido desenvolvido no escopo de acordo por meio da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), no âmbito do Programa Nacional de Qualidade na Doação de Órgãos para Transplantes (PRODOT), do Ministério da Saúde. Neste processo, a AMIB responde pela capacitação técnica dos inscritos.

A formação busca qualificar os profissionais nas diferentes etapas que antecedem uma doação. Isso inclui a identificação de potenciais doadores, a determinação da morte encefálica, a manutenção clínica do potencial doador e a comunicação com os familiares. Um dos objetivos é ampliar o número de profissionais preparados para conduzir esse processo e contribuir para a redução da não autorização familiar para a doação.

Atividades – Até julho, haviam sido realizados 69 cursos, distribuídos em 23 módulos e com atividades em 23 estados brasileiros. No entanto, outros treinamentos ocorreram em agosto e há previsão de iniciativas do tipo também em setembro, outubro e novembro.

Entre os participantes capacitados estão 785 médicos, que receberam treinamento voltado à determinação de morte encefálica. Também foram capacitados 989 enfermeiros, 37 técnicos de enfermagem, 14 farmacêuticos, 110 assistentes sociais e 118 psicólogos, além de profissionais de outras áreas.

O médico intensivista Joel de Andrade, membro do Comitê de Doação e Transplantes da AMIB, destacou como esse trabalho aperfeiçoa a participação das equipes de terapia intensiva nas diferentes etapas desse processo. “A capacitação dos profissionais fortalece esse fluxo e contribui para ampliar as possibilidades de transplante”, destacou.

Por sua vez, a coordenadora-geral do SNT, Patrícia Gonçalves Freire dos Santos, ressaltou a importância da Associação e de sua atuação na capacitação dos profissionais nesta seara. “É um grande prazer receber os representantes da AMIB e saber que podemos contar com o apoio da Associação para qualificação processos”, afirmou.

Já Cristiano Franke, presidente da AMIB, ressaltou que a integração entre a terapia intensiva e o SNT é estratégica para o aprimoramento de toda a cadeia de doação e transplante. Além de Franke e de Andrade, acompanharam as discussões o diretor-presidente da Comissão de Ética e Defesa do Exercício Profissional, Marcelo Maia; e o presidente do Conselho Consultivo da AMIB, Ederlon Rezende

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AMIB apresenta diagnóstico sobre médicos intensivistas ao CONASS e defende melhores condições de trabalho

A Associação de Medicina Intensiva Brasileira – AMIB apresentou ao Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Saúde (CONASS) dados do Inquérito Nacional sobre a Força de Trabalho Médica das UTIs Brasileiras. Durante o encontro, em Brasília (DF), na terça-feira (22), foram discutidas medidas voltadas à valorização dos médicos intensivistas e à implementação de melhores condições para o funcionamento das Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) do país.

O encontro e a apresentação dos dados ao CONASS integram uma série de ações da AMIB voltadas à valorização da Medicina Intensiva. A proposta é ampliar o diálogo com gestores e autoridades e levar o diagnóstico produzido pelo Inquérito a diferentes instâncias responsáveis pela formulação e execução de políticas de saúde. “Com os dados em mãos, fica claro quais os principais desafios e quais ações precisam ser tomadas”, afirmou Cristiano Franke, presidente da Associação.

O secretário-executivo do CONASS, Jurandi Frutuoso, demonstrou disposição para dar continuidade ao diálogo e levar as questões apresentadas pela AMIB aos secretários estaduais de Saúde. “A AMIB é sempre muito bem-vinda para trazer temas dessa importância ao CONASS. Esses dados são importantes porque conseguimos raciocinar sobre eles e trocar ideias com nossos secretários para poder efetivar e resolver essas questões”, afirmou.

Médicos intensivistas – Os dados apresentados mostraram alguns dos problemas que afetam a atuação dos médicos intensivistas e a assistência à população. Conduzido pela AMIB, em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM), o Inquérito ouviu 2.338 profissionais em 26 estados e no Distrito Federal.

Dentre outros resultados, os números apontam que 48,5% dos médicos que atuam em UTIs apresentam nível elevado de esgotamento mental e emocional. Também revelam que 46,4% desse grupo relatam baixo grau de satisfação com suas atividades. Ao todo, 79,7% dos entrevistados indicaram necessidade de atenção e cuidado com a saúde emocional.

Para Cristiano Franke, os resultados do estudo mostram a importância de uma atuação conjunta entre entidades médicas, gestores e agentes reguladores. “Apresentamos os principais achados desse trabalho feito em parceria com o CFM. Compartilhamos o perfil dos profissionais que estão atuando, hoje, nas terapias intensivas e discutimos como podemos evoluir no cuidado do paciente grave”, afirmou.

O presidente da AMIB destacou ainda que a qualificação do atendimento nas UTIs passa também pelas condições oferecidas aos profissionais responsáveis pelo cuidado. O Inquérito aponta que médicos com maior grau de especialização apresentam menores níveis de esgotamento e distanciamento afetivo e maior grau de realização pessoal. Ele reiterou que o diagnóstico realizado subsidiará o debate com gestores públicos sobre a realidade da força de trabalho médica nas UTIs, a importância de sua valorização e o aumento de investimentos nas unidades.

Agenda nacional – Para o presidente da Comissão de Ética e Defesa do Exercício Profissional da AMIB, Marcelo Maia, a reunião com o CONASS representa mais um passo importante na construção de uma agenda nacional voltada ao fortalecimento da Terapia Intensiva e à qualificação da assistência ao paciente crítico no Brasil.

“Precisamos transformar informação em planejamento. Não é possível discutir a expansão ou a qualificação dos leitos de terapia intensiva sem discutir, simultaneamente, quem estará à frente desses leitos, com qual formação, em quais condições de trabalho e com quais perspectivas de carreira. A força de trabalho médica é parte indissociável da qualidade e da segurança da assistência ao paciente crítico”, avalia.

Ainda segundo Marcelo Maia, a discussão vai além do dimensionamento numérico de profissionais. “Passa pela formação especializada, valorização do título de especialista e do RQE em Medicina Intensiva, ampliação e fortalecimento dos programas de residência médica, educação continuada, condições adequadas de trabalho, modelos de contratação, saúde ocupacional e estratégias para reduzir as desigualdades regionais na distribuição dos intensivistas”.

Pela AMIB, participaram da reunião: Cristiano Franke (presidente), Ederlon Rezende (presidente do Conselho Consultivo), Marcelo Maia (diretor da Comissão de Ética e Defesa do Exercício Profissional) e Joel Andrade (membro do Comitê de Doação e Transplantes). Pelo CONASS, estavam o médico Jurandi Frutuoso (secretário-executivo) e Haroldo Jorge de Carvalho Pontes (assessor técnico de Gestão do Trabalho, Educação na Saúde, Saúde Indígena e Controle Social).

Levantamento aponta cenário de esgotamento emocional e burnout dos médicos que atuam nas UTIs no Brasil

Quase metade (48,5%) dos médicos que trabalham nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) apresenta nível elevado de esgotamento mental e emocional. Além do estresse acumulado, parcela significativa desses profissionais (46,4%) relata baixo grau de satisfação com suas atividades. Esses dados fazem parte do Inquérito Nacional sobre a Força de Trabalho Médica das UTIs Brasileiras, conduzido pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB), em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM).

A divulgação do capítulo sobre saúde mental dos médicos que atuam em medicina intensiva no Brasil aconteceu na terça-feira, 15 de setembro, na sede da AMIB, em São Paulo. Além da presença dos principais veículos de imprensa, o evento contou com a participação do presidente da AMIB, Cristiano Franke; Flávia Machado, diretora presidente futura; Patrícia Mello, diretora presidente passada; Ederlon Rezende, diretor presidente do Conselho Consultivo; e Marcelo Maia, diretor presidente da Comissão de Ética e Defesa do Exercício Profissional. Representando o CFM, estiveram presentes a 2ª vice-presidente, Rosylane Rocha, e o diretor, Estevam Rivello. Já a AMB foi representada por José Eduardo Lutaif Dolci.

Os achados dessa investigação, que ouviu 2.338 profissionais em 26 estados e Distrito Federal, sugerem um quadro de grande vulnerabilidade dos médicos que atuam nas UTIs brasileiras à síndrome de Burnout, fenômeno caracterizado pela exaustão emocional, distanciamento afetivo e sensação de baixa realização pessoal.

“Um sistema de saúde só é resiliente se cuida também de quem sustenta o cuidado. Os dados desse Inquérito mostram que a saúde mental dos médicos das UTIs não pode ser tratada como pauta secundária. Ela é questão prioritária para políticas públicas, que exige mobilização de gestores, instituições e autoridades de saúde. Seguiremos empenhados em transformar esse diagnóstico em ação concreta”, afirma Cristiano Franke, presidente da AMIB.

A investigação mostra que quatro em cada cinco (79,7%) médicos que atuam em UTIs requerem atenção e cuidado com a saúde emocional. Enquanto 31,2% indicaram um esgotamento moderado, a maioria (48,5%) sinalizou um alto nível de desgaste. Do total de entrevistados, apenas 20,3% relataram baixos níveis de esgotamento emocional.

Na avaliação da AMIB, que acompanha a atuação dos médicos das UTIs de forma rotineira, esse quadro decorre, possivelmente, da carga horária de trabalho elevada, da exposição constante às situações críticas, como a precariedade da infraestrutura e a demanda crescente da população por cuidados diante de uma rede de cobertura limitada. Também são apontados como fatores potenciais para essa situação o confronto diário dos profissionais com situações limite (dor, sofrimento e morte) e a exigência de tomadas de decisões necessariamente ágeis e precisas.

A situação de desgaste emocional verificada no inquérito parece guardar estreita relação com a quantidade de profissionais que indicaram algum grau de frustração no exercício da função. A satisfação baixa com a atividade desempenhada, apontada por 46,4%, segue o mesmo patamar proporcional daqueles que indicaram altos níveis de esgotamento mental. Quando inseridos aqueles com grau moderado de satisfação – o que também demanda atenção –, 84,5% da força de trabalho médica demonstra não estar totalmente satisfeita com o próprio exercício da medicina nas UTIs.

A tríade que contribui para o surgimento da síndrome do Burnout se fecha com a detecção de que 45,6% dos respondentes afirmam ter algum grau de despersonalização, fenômeno caracterizado pelo distanciamento emocional e pela adoção de atitudes classificadas como frias, apáticas ou até mesmo cínicas com relação a pacientes e colegas de trabalho. Esse comportamento prejudicial ao ambiente assistencial compromete a qualidade do atendimento, afeta a dinâmica de comunicação nas equipes e se contrapõe à humanização do cuidado. Enquanto 29,6% dos médicos responderam por um nível moderado de despersonalização, 16% reportaram níveis elevados desta percepção.

Apesar de não se aprofundar no tema, o estudo sugere que a qualificação dos especialistas é fator protetor contra esse cenário de esgotamento emocional, afastamento afetivo e baixo nível de realização profissional. Os dados mostram que, quanto maior o grau de especialização do médico que trabalha no ambiente intensivo, menor o nível de esgotamento mental, menor a referência a comportamentos de distanciamento afetivo e maior o grau de realização pessoal com o exercício da profissão.

Por outro lado, quanto menos especializado o médico, maiores os níveis de esgotamento, de distanciamento e menor a satisfação com o próprio desempenho. “O inquérito mostra como a qualidade da formação dos médicos em Medicina Intensiva vai além dos títulos. Ela impacta na saúde mental e física dos médicos e, por conseguinte, na qualidade da assistência que é destinada ao paciente crítico”, conclui Franke.

Entre os médicos intensivistas, 44,5% relataram alto nível de esgotamento emocional, 12,7% alto grau de “despersonalização” e 39,8% baixo nível de satisfação com o próprio desempenho. Em contraste, entre os médicos generalistas que trabalham nas UTIs, os percentuais foram 52,3%, 20,1% e 50,7%, respectivamente.

Alta especialização – A UTI é um dos ambientes mais exigentes da medicina. Quem trabalha com pacientes críticos precisa de alta especialização técnica, saber tomar decisões sob pressão e ter discernimento para enfrentar dilemas éticos. Tudo isso em um contexto de proximidade com a dor, o sofrimento e o risco de morte entre os pacientes.

Essa combinação explosiva é reconhecida internacionalmente como fator para o desgaste emocional. Em todo o mundo, diferentes estudos apontam que a prevalência de burnout entre médicos que atuam em serviços de UTI pode ultrapassar os 50%, sendo a exaustão emocional o componente mais presente. Entender como esse fenômeno se materializa no Brasil foi o que levou a AMIB a propor o desenvolvimento desse Inquérito, cujos resultados poderão auxiliar os especialistas e os gestores públicos e privados a combater os contextos negativos.

Sem esse enfrentamento, a situação tende a piorar por conta da série de problemas gerados, calcula a Associação de Medicina Intensiva, para quem o desgaste dos médicos e das equipes compromete o desempenho clínico e a qualidade de vida dos profissionais, o que reverbera na assistência aos pacientes. Para a AMIB, médicos exaustos, sem estímulos profissionais e submetidos à pressão de pacientes e familiares devido à falta de infraestrutura ficam suscetíveis a perda de foco na condução de suas rotinas.

“Quem trabalha em uma UTI vê a vida de seus pacientes por um fio. Se o médico está esgotado, sua atuação pode ser menos consistente do que o desejado. Por isso, é preciso inverter a lógica desse jogo e também cuidar daqueles que cuidam para sustentar a qualidade da assistência ao paciente crítico no Brasil”, ressaltou Franke.

Diagnóstico para autoridades – Segundo ele, com os resultados do Inquérito, a AMIB pretende levar esse diagnóstico às autoridades e pressionar por medidas que podem mudar esse cenário. Serão destinatários desse documento, políticos, gestores e membros dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, bem como o Ministério Público, entidades médicas nacionais e outros órgãos de fiscalização e controle.

Franke ressalta que a intenção da AMIB é “criar uma grande rede de apoio à medicina intensiva no país que reivindique a adoção de políticas públicas que ajudem a combater os cenários desfavoráveis para as UTIs”. Os insights que o levantamento traz delineiam de modo concreto, por exemplo, os fatores que comprometem a qualidade de vida dos médicos desses serviços e, por consequência, impactam negativamente em sua rotina de trabalho

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