Quase metade (48,5%) dos médicos que trabalham nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) apresenta nível elevado de esgotamento mental e emocional. Além do estresse acumulado, parcela significativa desses profissionais (46,4%) relata baixo grau de satisfação com suas atividades. Esses dados fazem parte do Inquérito Nacional sobre a Força de Trabalho Médica das UTIs Brasileiras, conduzido pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB), em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM).
A divulgação do capítulo sobre saúde mental dos médicos que atuam em medicina intensiva no Brasil aconteceu na terça-feira, 15 de setembro, na sede da AMIB, em São Paulo. Além da presença dos principais veículos de imprensa, o evento contou com a participação do presidente da AMIB, Cristiano Franke; Flávia Machado, diretora presidente futura; Patrícia Mello, diretora presidente passada; Ederlon Rezende, diretor presidente do Conselho Consultivo; e Marcelo Maia, diretor presidente da Comissão de Ética e Defesa do Exercício Profissional. Representando o CFM, estiveram presentes a 2ª vice-presidente, Rosylane Rocha, e o diretor, Estevam Rivello. Já a AMB foi representada por José Eduardo Lutaif Dolci.
Os achados dessa investigação, que ouviu 2.338 profissionais em 26 estados e Distrito Federal, sugerem um quadro de grande vulnerabilidade dos médicos que atuam nas UTIs brasileiras à síndrome de Burnout, fenômeno caracterizado pela exaustão emocional, distanciamento afetivo e sensação de baixa realização pessoal.
“Um sistema de saúde só é resiliente se cuida também de quem sustenta o cuidado. Os dados desse Inquérito mostram que a saúde mental dos médicos das UTIs não pode ser tratada como pauta secundária. Ela é questão prioritária para políticas públicas, que exige mobilização de gestores, instituições e autoridades de saúde. Seguiremos empenhados em transformar esse diagnóstico em ação concreta”, afirma Cristiano Franke, presidente da AMIB.
A investigação mostra que quatro em cada cinco (79,7%) médicos que atuam em UTIs requerem atenção e cuidado com a saúde emocional. Enquanto 31,2% indicaram um esgotamento moderado, a maioria (48,5%) sinalizou um alto nível de desgaste. Do total de entrevistados, apenas 20,3% relataram baixos níveis de esgotamento emocional.
Na avaliação da AMIB, que acompanha a atuação dos médicos das UTIs de forma rotineira, esse quadro decorre, possivelmente, da carga horária de trabalho elevada, da exposição constante às situações críticas, como a precariedade da infraestrutura e a demanda crescente da população por cuidados diante de uma rede de cobertura limitada. Também são apontados como fatores potenciais para essa situação o confronto diário dos profissionais com situações limite (dor, sofrimento e morte) e a exigência de tomadas de decisões necessariamente ágeis e precisas.
A situação de desgaste emocional verificada no inquérito parece guardar estreita relação com a quantidade de profissionais que indicaram algum grau de frustração no exercício da função. A satisfação baixa com a atividade desempenhada, apontada por 46,4%, segue o mesmo patamar proporcional daqueles que indicaram altos níveis de esgotamento mental. Quando inseridos aqueles com grau moderado de satisfação – o que também demanda atenção –, 84,5% da força de trabalho médica demonstra não estar totalmente satisfeita com o próprio exercício da medicina nas UTIs.
A tríade que contribui para o surgimento da síndrome do Burnout se fecha com a detecção de que 45,6% dos respondentes afirmam ter algum grau de despersonalização, fenômeno caracterizado pelo distanciamento emocional e pela adoção de atitudes classificadas como frias, apáticas ou até mesmo cínicas com relação a pacientes e colegas de trabalho. Esse comportamento prejudicial ao ambiente assistencial compromete a qualidade do atendimento, afeta a dinâmica de comunicação nas equipes e se contrapõe à humanização do cuidado. Enquanto 29,6% dos médicos responderam por um nível moderado de despersonalização, 16% reportaram níveis elevados desta percepção.
Apesar de não se aprofundar no tema, o estudo sugere que a qualificação dos especialistas é fator protetor contra esse cenário de esgotamento emocional, afastamento afetivo e baixo nível de realização profissional. Os dados mostram que, quanto maior o grau de especialização do médico que trabalha no ambiente intensivo, menor o nível de esgotamento mental, menor a referência a comportamentos de distanciamento afetivo e maior o grau de realização pessoal com o exercício da profissão.
Por outro lado, quanto menos especializado o médico, maiores os níveis de esgotamento, de distanciamento e menor a satisfação com o próprio desempenho. “O inquérito mostra como a qualidade da formação dos médicos em Medicina Intensiva vai além dos títulos. Ela impacta na saúde mental e física dos médicos e, por conseguinte, na qualidade da assistência que é destinada ao paciente crítico”, conclui Franke.
Entre os médicos intensivistas, 44,5% relataram alto nível de esgotamento emocional, 12,7% alto grau de “despersonalização” e 39,8% baixo nível de satisfação com o próprio desempenho. Em contraste, entre os médicos generalistas que trabalham nas UTIs, os percentuais foram 52,3%, 20,1% e 50,7%, respectivamente.
Alta especialização – A UTI é um dos ambientes mais exigentes da medicina. Quem trabalha com pacientes críticos precisa de alta especialização técnica, saber tomar decisões sob pressão e ter discernimento para enfrentar dilemas éticos. Tudo isso em um contexto de proximidade com a dor, o sofrimento e o risco de morte entre os pacientes.
Essa combinação explosiva é reconhecida internacionalmente como fator para o desgaste emocional. Em todo o mundo, diferentes estudos apontam que a prevalência de burnout entre médicos que atuam em serviços de UTI pode ultrapassar os 50%, sendo a exaustão emocional o componente mais presente. Entender como esse fenômeno se materializa no Brasil foi o que levou a AMIB a propor o desenvolvimento desse Inquérito, cujos resultados poderão auxiliar os especialistas e os gestores públicos e privados a combater os contextos negativos.
Sem esse enfrentamento, a situação tende a piorar por conta da série de problemas gerados, calcula a Associação de Medicina Intensiva, para quem o desgaste dos médicos e das equipes compromete o desempenho clínico e a qualidade de vida dos profissionais, o que reverbera na assistência aos pacientes. Para a AMIB, médicos exaustos, sem estímulos profissionais e submetidos à pressão de pacientes e familiares devido à falta de infraestrutura ficam suscetíveis a perda de foco na condução de suas rotinas.
“Quem trabalha em uma UTI vê a vida de seus pacientes por um fio. Se o médico está esgotado, sua atuação pode ser menos consistente do que o desejado. Por isso, é preciso inverter a lógica desse jogo e também cuidar daqueles que cuidam para sustentar a qualidade da assistência ao paciente crítico no Brasil”, ressaltou Franke.
Diagnóstico para autoridades – Segundo ele, com os resultados do Inquérito, a AMIB pretende levar esse diagnóstico às autoridades e pressionar por medidas que podem mudar esse cenário. Serão destinatários desse documento, políticos, gestores e membros dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, bem como o Ministério Público, entidades médicas nacionais e outros órgãos de fiscalização e controle.
Franke ressalta que a intenção da AMIB é “criar uma grande rede de apoio à medicina intensiva no país que reivindique a adoção de políticas públicas que ajudem a combater os cenários desfavoráveis para as UTIs”. Os insights que o levantamento traz delineiam de modo concreto, por exemplo, os fatores que comprometem a qualidade de vida dos médicos desses serviços e, por consequência, impactam negativamente em sua rotina de trabalho
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