06/04/2026
O médico pediatra e intensivista Cláudio Flauzino de Oliveira (SP), doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo (USP) e integrante do painel internacional da Surviving Sepsis Campaign, participou do Critical Care Congress 2026, em Chicago (EUA). O evento, promovido pela Society of Critical Care Medicine (SCCM), é um dos mais importantes da terapia intensiva no mundo.
Na ocasião, Flauzino, que é membro do Comitê Choque e Monitorização Hemodinâmica, da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) e do Instituto Latino Americano da Sepse (ILAS), participou de uma sessão dedicada às novas diretrizes internacionais para o manejo da sepse e do choque séptico em crianças. A apresentação do brasileiro abordou especificamente o que há de novo no reconhecimento da sepse, no manejo da infecção e na ressuscitação hemodinâmica, que são pilares fundamentais do cuidado inicial desses pacientes.
Em entrevista à AMIB, o especialista detalha as principais mudanças na prática clínica e analisa os impactos dessas diretrizes para a melhoria do cuidado e da sobrevida de crianças com sepse. Confira!
AMIB – Quais foram suas principais contribuições para a elaboração das diretrizes?
Cláudio Flauzino – Participei, representando AMIB e ILAS, como membro do painel internacional de especialistas contribuindo na análise crítica das evidências científicas e na formulação das recomendações. As principais contribuições envolvem principalmente: Discussão e interpretação de evidências, especialmente em cenários pediátricos; Avaliação da aplicabilidade das recomendações em diferentes contextos, incluindo países de média e baixa renda; Construção de recomendações mais flexíveis e adaptáveis à realidade dos sistemas de saúde.
AMIB – De modo geral, o que mudou?
Cláudio Flauzino -A principal mudança foi conceitual, mas ela se traduz em alterações práticas importantes em vários pontos do cuidado.
De forma mais detalhada, as diretrizes de 2026 trouxeram as seguintes mudanças relevantes, nas áreas de reconhecimento e tratamento da infecção, fluido terapia, terapia vasoativa e monitorização hemodinâmica:
Reconhecimento da sepse: Não houve recomendação para uso rotineiro de ferramentas de triagem sistemática isoladamente. O foco passou a ser menos em checklists e mais em sistemas de cuidado bem estruturados, com protocolos, treinamento e monitoramento de desempenho.
Programas institucionais: Houve um reforço importante, com recomendação forte, para implementação de programas de melhoria de qualidade em sepse, incluindo protocolos assistenciais e auditoria de resultados — reconhecendo que organização do sistema impacta diretamente nos desfechos.
Uso do lactato: Foi mantida e reforçada a recomendação de dosar lactato precocemente, mas com uma visão mais clara de que ele é um marcador de risco e perfusão, e não um critério diagnóstico isolado nem um alvo único de ressuscitação.
Antibioticoterapia: O conceito ficou mais equilibrado.
Continua sendo essencial iniciar antibiótico rapidamente no choque séptico (idealmente em até 1 hora), mas, nos casos sem choque, as diretrizes passam a permitir um curto período de avaliação clínica, evitando uso excessivo e reforçando o papel do stewardship.
Testes diagnósticos: Apesar do avanço dos testes moleculares, não houve recomendação para uso rotineiro, destacando a necessidade de avaliar custo, disponibilidade e impacto real em desfechos.
Fluidoterapia: As recomendações passaram a enfatizar ainda mais o contexto clínico e estrutural. Por exemplo, em locais sem acesso a terapia intensiva, recomenda-se evitar bolus de fluidos em crianças sem hipotensão, o que representa uma mudança importante em relação a abordagens mais padronizadas do passado.
Ressuscitação hemodinâmica: Há uma tendência para priorizar reavaliação contínua à beira do leito, com base em sinais clínicos de perfusão, em vez de metas rígidas.
Monitorização: Foi reforçada a importância da avaliação clínica seriada como base da ressuscitação. Métodos mais avançados continuam sem evidência suficiente para uso rotineiro, mas o uso de ultrassom à beira do leito (POCUS) ganhou espaço como ferramenta complementar.
Vasoativos: As diretrizes reconhecem a falta de evidência para definir momentos rígidos de início ou escolha de droga. Destaca-se a possibilidade de iniciar vasoativos precocemente e, quando necessário, até mesmo por acesso periférico, o que facilita o manejo inicial. De forma geral, as mudanças refletem uma evolução importante, porque saímos de uma abordagem mais padronizada para um modelo mais individualizado, baseado em fisiologia e adaptado à realidade de cada serviço de saúde.
AMIB – Qual a sua avaliação sobre essas mudanças?
Cláudio Flauzino – A avaliação é positiva. Essas diretrizes refletem uma evolução importante no entendimento da sepse pediátrica, reconhecendo as limitações das evidências atuais e incorporando maior flexibilidade na tomada de decisão clínica. Refletem também um amadurecimento das diretrizes e maior grau de certeza em algumas evidências, resultado da realização e publicação de estudos mais recentes.
AMIB- Como essas mudanças vão contribuir para as crianças sobreviverem à sepse?
Cláudio Flauzino – Essas mudanças têm potencial de melhorar o cuidado das crianças com sepse, dependendo – é claro – da difusão do conhecimento e dos treinamentos que deverão ser aplicados, em especial nas localidades que apresentam maior impacto da sepse, em termos de morbi-mortalidade. A expectativa é que a nova versão do guideline favoreça o diagnóstico mais precoce, evite intervenções desnecessárias ou potencialmente prejudiciais, promova decisões mais individualizadas e incentive organização do cuidado por meio de protocolos e programas de qualidade. No conjunto, isso tende a melhorar não apenas a sobrevida, mas também a qualidade do cuidado oferecido às crianças com sepse.