A nova gestão da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) inicia 2026 com metas claras e estratégicas voltadas para o fortalecimento da terapia intensiva em todas as regiões do Brasil. Entre as prioridades estão a valorização do médico intensivista, a defesa profissional da especialidade, o fortalecimento da formação médica contínua, através do modelo consolidado de residência e especialização com acesso direto, e incentivo à produção científica.
Em um cenário de expansão dos leitos de UTI, mas ainda marcado por desigualdades regionais, que envolve tanto a disponibilização de leitos quanto a fixação de profissionais, a nova diretoria aposta no uso de dados técnicos, na articulação com gestores públicos e privados e na atuação institucional junto aos poderes públicos como caminhos para enfrentar gargalos históricos do setor.
Ao longo da nova gestão, a AMIB pretende ampliar sua representatividade, fortalecer parcerias estratégicas e consolidar seu papel como referência técnica na organização do cuidado ao paciente grave. A sustentabilidade das UTIs, a melhoria da gestão dos recursos e a preparação do sistema de saúde para futuras emergências sanitárias também integram a agenda de prioridades do novo grupo gestor. Na entrevista a seguir, o presidente da AMIB, o médico intensivista Cristiano Franke, detalha os compromissos que vão nortear a atuação da entidade nos próximos anos. Confira!
Quais são as prioridades da nova gestão para a Medicina Intensiva Brasileira?
Cristiano Franke – Estamos muito motivados a fortalecer a defesa profissional, a formação do intensivista, bem como a educação continuada e a pesquisa em medicina intensiva. Faremos esforços concentrados no reconhecimento e na valorização desse profissional, que faz a diferença no cuidado ao paciente grave.
Sabemos que, muitas vezes, é necessário utilizar diferentes ferramentas para deixar clara essa importância para gestores de saúde, gestores hospitalares e para a sociedade como um todo. No cuidado ao paciente grave, seja na atuação diária, na coordenação da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) ou durante um plantão noturno de fim de semana, com múltiplos pacientes sob sua responsabilidade, o intensivista qualificado faz toda a diferença.
Esse impacto não se restringe apenas ao paciente, mas também se reflete no acolhimento e no cuidado com os familiares, na organização da assistência aos demais pacientes da UTI e do hospital e em todo o sistema de saúde. Teremos um foco importante na ampliação e qualificação da formação do intensivista, por meio do modelo consolidado de residência médica e especialização com acesso direto. É fundamental manter atualizadas as normativas de formação em uma área que passa por mudanças significativas em curtos períodos de tempo.
Além disso, vamos trabalhar intensamente para oferecer informação científica de qualidade em diversos formatos, acessíveis a todos os intensivistas brasileiros, seja por meio de eventos presenciais, congressos, cursos ou atividades online.
Qual a sua avaliação, como atual presidente da AMIB, sobre o atual cenário da terapia intensiva no Brasil, tanto no setor público quanto no privado?
Cristiano Franke – Estamos vivendo um momento de grande expansão dos leitos de UTI no país. O Censo AMIB demonstrou um crescimento de cerca de 50% nos últimos dez anos, e seguimos ampliando esse número. Esse cenário gera uma demanda crescente por profissionais qualificados em todas as regiões do Brasil, ao mesmo tempo em que observamos um aumento proporcional na procura pela especialização em medicina intensiva.
O número de residentes na área cresce ano após ano, fazendo da medicina intensiva uma das especialidades que mais se expandiram recentemente. Da mesma forma, o número de candidatos à prova de título de especialista aumenta a cada edição. Em 2025, superamos a marca expressiva de mil médicos inscritos, com um contingente cada vez maior de novos especialistas ingressando na área.
Quais são os principais gargalos enfrentados pelas UTIs brasileiras?
Cristiano Franke – Entendo que um dos principais gargalos está no financiamento das UTIs, especialmente no setor público, que responde por aproximadamente 50% dos leitos do país e atende cerca de 75% da população brasileira, o que representa aproximadamente 150 milhões de pessoas.
O sistema suplementar concentra os outros 50% dos leitos e atende cerca de 25% da população. Essa distribuição acaba gerando desigualdades importantes no acesso, sobretudo em algumas regiões do país, onde há menor proporção de leitos de UTI e, principalmente, de médicos especialistas. Esses desafios envolvem tanto o financiamento quanto a gestão adequada dos recursos pelas diferentes esferas de governo, refletindo desigualdades regionais e também entre capitais e municípios do interior.
Há projetos em desenvolvimento que poderiam reduzir ou até mesmo sanar esses gargalos?
Cristiano Franke – O primeiro passo é a correta identificação e avaliação desses gargalos. Nesse sentido, a AMIB tem atuado de forma exemplar por meio dos dados do Programa UTIs Brasileiras e do Censo AMIB, que oferecem informações precisas e relevantes para embasar essa discussão. Essas ferramentas nos permitem avançar para os próximos passos, que envolvem articulação institucional e diálogo com gestores públicos e privados, com o objetivo de construir estratégias eficazes para o enfrentamento desses desafios.
Qual deve ser o papel da AMIB no diálogo com gestores públicos e privados?
Cristiano Franke – O papel da AMIB deve ser sempre colaborativo, com o objetivo de unir forças e ações em prol do desenvolvimento e da qualificação da terapia intensiva brasileira. Temos exemplos concretos de parcerias bem-sucedidas com gestores públicos, que resultaram em impactos positivos e duradouros para todo o sistema de saúde.
A AMIB pretende ampliar sua atuação junto ao Ministério da Saúde e ao Congresso Nacional?
Cristiano Franke – A AMIB deve atuar de forma permanente junto ao Ministério da Saúde e ao Parlamento para promover e ampliar o cuidado de excelência ao paciente grave em todo o país. A manutenção e a ampliação dos canais de diálogo construídos em gestões anteriores são fundamentais para alcançar esses objetivos. O fortalecimento de ações nessas esferas, inclusive em articulação com outras entidades representativas da classe médica, é um ponto importante e estratégico na agenda dessa gestão.
A pandemia deixou lições importantes. Hoje, o Brasil está melhor preparado para uma nova emergência sanitária?
Cristiano Franke – Houve uma evolução importante após a pandemia. Atualmente, contamos com mais leitos de UTI em funcionamento, maior disponibilidade de recursos e suprimentos e menor dependência de fornecedores, uma vez que esse número foi ampliado. Ainda assim, há amplo espaço para avançarmos, especialmente no que diz respeito à organização dos gestores do sistema de saúde e das instituições para o planejamento e a gestão da resposta a situações de crise. Outro grande desafio é a disponibilidade de profissionais qualificados nas UTIs, considerando que muitos deixaram ou estão deixando a área em função da estafa e do burnout.
Como valorizar o trabalho realizado pelos médicos intensivistas, que foi crucial inclusive durante a pandemia de Covid-19?
Cristiano Franke – Esse é um tema extremamente relevante. O intensivista tem a habilidade e a capacidade de cuidar integralmente do paciente grave, sempre em conjunto com uma equipe multiprofissional qualificada. É esse profissional que toma decisões em poucos segundos, muitas vezes determinantes para a sobrevivência do paciente. O reconhecimento permanente da importância desse especialista para a qualidade do cuidado na UTI deve ser o caminho, mesmo diante das dificuldades estruturais existentes em algumas regiões do país.
Que mensagem o senhor gostaria de deixar aos intensivistas brasileiros neste início de gestão?
Cristiano Franke – Queremos, primeiramente, escutar os intensivistas e fazer com que eles se sintam pertencentes à nossa sociedade. Uma sociedade que valoriza seu trabalho, apoia seu crescimento profissional e está atenta às dificuldades e aos desafios enfrentados no dia a dia dos plantões. Também estamos comprometidos em oferecer recursos para atualização científica e em fomentar ativamente a produção de conhecimento na área da medicina intensiva.
O que a sociedade brasileira pode esperar da AMIB nos próximos anos?
Cristiano Franke – Para os próximos anos, trabalharemos para construir uma sociedade ainda mais forte, com ampliação do número de associados, representando todas as regiões do país, sempre em parceria com as regionais e valorizando a diversidade. Queremos uma AMIB sustentável, comprometida com a sustentabilidade das UTIs e dos hospitais, e que esteja ao lado dos intensivistas brasileiros em todos os momentos.











