Confira entrevista com o médico Vicente Castro, que está à frente da UTI do Hospital e Maternidade Madalena Nunes, em Tinguá, e recebeu a premiação

O Hospital e Maternidade Madalena Nunes (São Camilo), em Tianguá, município cearense a 330 quilômetros da capital, Fortaleza, escreve um novo capítulo na medicina intensiva brasileira. A Unidade de Terapia Intensiva (UTI) foi premiada com o selo Top Performer, certificação concedida pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) e pela Epimed Solutions a UTIs que se destacam pela alta eficiência e qualidade no cuidado aos pacientes. 

À frente dessa unidade inspiradora está o médico Vicente Castro, um dos primeiros intensivistas formados no estado do Piauí, e que acredita que “gente bem formada, com empatia e vontade de fazer o melhor tem o poder de transformar”. Para ele, o maior mito a ser derrubado é o de que uma UTI pública não pode ser boa. “É possível, sim, ter UTIs de qualidade no SUS, realizar trabalhos consistentes e oferecer novas chances de vida a milhares de pessoas — milhares de Josés, Marias, Antônios e tantos outros que passam por nós”, afirma.

“Testemunhar a conquista de uma UTI pública que se destacou pela excelência na gestão e nos resultados é motivo de grande orgulho, ainda mais por estar sob a coordenação do doutor Vicente, primeiro residente de Medicina Intensiva do estado do Piauí”, afirma a presidente da AMIB, Patrícia Mello.

Formado pela Universidade Federal do Piauí, Vicente iniciou sua trajetória na residência em Clínica Médica e, posteriormente, foi “recrutado” para a especialização em Medicina Intensiva pela própria dra. Patrícia, então sua preceptora. “São profissionais como ele – e trabalhos como esse – que fazem tudo valer a pena. Parabenizo o doutor Vicente e toda a equipe pelo excelente trabalho realizado”, destacou a presidente da AMIB.

A equipe de comunicação da AMIB entrevistou Vicente Castro e, a seguir, compartilha os principais momentos dessa conversa sobre saúde pública, formação continuada e medicina intensiva. Confira!

AMIB – Como você recebeu a notícia do reconhecimento de sua UTI no Top Performer? Como foi a repercussão entre sua equipe e no hospital?

Vicente Castro – Recebemos com uma certa surpresa, porque estamos tão imersos na rotina do dia a dia que, muitas vezes, não paramos para refletir sobre a qualidade e o impacto do que estamos fazendo. Quando soubemos que estávamos concorrendo, o que, por si só, já é algo muito relevante, veio aquele pensamento: “Poxa, é mesmo?!”.

Acompanhávamos os dados, claro, mas não tínhamos noção de como eram bons, nem de quanto retorno o nosso trabalho estava gerando. E isso, levando em conta que atuamos em uma UTI de hospital público no interior do Ceará, em Tianguá. Por isso, a surpresa foi ainda maior. Paramos para refletir e concluímos que o que estamos fazendo é realmente um bom trabalho.

Começamos então a compartilhar a notícia com a equipe. Afinal, assim como nós, muitos do time, na correria diária, não se dão conta da importância e da dimensão do que estão realizando. Passei a dizer aos técnicos e enfermeiros: “Vocês têm noção da UTI em que trabalham? Ela está concorrendo à maior certificação do programa da AMIB, justamente por conta da qualidade da gestão e dos resultados que temos apresentado”.

A partir desse momento, fomos compreendendo melhor a dimensão do reconhecimento. E quando veio a confirmação de que receberíamos o selo, a felicidade foi imensa. Na verdade, o sentimento predominante foi de gratidão. É um reconhecimento de que estamos no caminho certo. Nós já tínhamos essa consciência internamente, mas ver isso validado por olhares externos é extremamente gratificante.

AMIB – Na gestão pública (neste caso de uma UTI), de que maneira o monitoramento ajuda a fazer mais com menos?

Vicente Castro – O monitoramento nos ajuda porque oferece retorno tanto do ponto de vista técnico, mostrando como os pacientes estão evoluindo, quanto econômico, ao indicar os custos envolvidos. Conseguimos ver se os pacientes estão realmente melhorando, recebendo alta da UTI e, principalmente, alta hospitalar para casa.

Esse acompanhamento também permite avaliar como os recursos estão sendo utilizados, tanto os recursos humanos quanto os materiais, como medicamentos, dispositivos e equipamentos. Assim, conseguimos observar a relação entre o que é investido e os resultados alcançados.

De forma bem direta, percebemos que estamos conseguindo salvar muitas vidas, utilizando bem os recursos, sem desperdício, aproveitando ao máximo aquilo que nos é fornecido. E, mesmo que esse fornecimento nem sempre represente o ideal em volume, conseguimos fazer o suficiente – e, muitas vezes, até mais – com o que temos.

AMIB – O monitoramento mudou a rotina da tomada de decisão da equipe?

Vicente Castro – Sim, mudou no sentido de que, como esse acompanhamento é praticamente em tempo real, os dados são inseridos diariamente e avaliados tanto de forma imediata quanto mensalmente. Isso nos permite ter uma visão clara do que aconteceu naquele período na UTI e pensar em estratégias de melhoria. O monitoramento nos possibilita analisar os dados com profundidade e, com base neles, traçar planos de ação. Ou seja, passamos a tomar decisões com mais embasamento. E o melhor: conseguimos acompanhar os resultados dessas decisões quase em tempo real.

AMIB – Há alguns indicadores que são acompanhamos com mais frequência no dia a dia?

Vicente Castro – Sim. Os indicadores mais comuns, especialmente aqueles que refletem alta performance, estão relacionados aos desfechos — o que chamamos de “desfechos duros”, como a mortalidade. Trabalhamos com a mortalidade ajustada à gravidade do paciente, que é um dos nossos principais indicadores. Também acompanhamos o TURP, que avalia a eficiência no uso dos recursos aplicados aos pacientes.

Além desses, monitoramos a média de permanência na UTI, os índices de infecção, o tempo de ventilação mecânica, entre outros. Todos esses dados são registrados e analisados para que possamos ter um panorama geral da nossa UTI e, a partir disso, traçar estratégias e planos de ação.

AMIB – Como é trabalhar com limitações estruturais ou orçamentárias típicas de uma UTI pública? Quais estratégias você adotou para superá-las?

Vicente Castro – As limitações são muitas, especialmente em uma UTI pública, onde o orçamento é bastante enxuto. Sabemos que o financiamento do SUS é defasado e, no fim das contas, quando os recursos faltam, quem sustenta tudo somos nós: a equipe. Gente capacitada, bem treinada, que consegue extrair o máximo do pouco que temos.

Acredito que o diferencial está justamente nisso. Ter pessoas que, mesmo diante das adversidades, conseguem entregar o melhor. E é isso que sempre reforço com os colaboradores da UTI: o resultado é de todos.

Costumo dizer que, quando faltam recursos, o que sobra é a nossa expertise, nossa sensibilidade, nossa empatia e a disposição de seguir lutando para fazer o melhor. Sem dúvida, esse conhecimento e essa dedicação fazem toda a diferença no dia a dia.

AMIB – Organizar uma UTI no SUS pode ser desafiador por diversos motivos. Do ponto de vista regional, quais os principais desafios enfrentados e como você os enfrenta?

Vicente Castro – Nossa UTI foi a primeira da cidade e também da região. Estamos numa área extensa, que abrange diversos municípios ao redor, e que há muito tempo já merecia uma unidade de terapia intensiva, mas os recursos ainda não haviam chegado. A pandemia acabou sendo um catalisador desse processo. Diante do estado de emergência e calamidade, foi possível captar recursos para sua instalação.

Entramos com nosso conhecimento para estruturar e organizar tudo. Tivemos que treinar a equipe praticamente do zero. Muitos profissionais não tinham experiência prévia com o ambiente de terapia intensiva, nem com o uso de monitores, bombas de infusão, ventiladores, entre outros recursos. Fomos literalmente desenhando, passo a passo, como seria o monitoramento, a rotina e o cuidado.

O principal desafio foi justamente esse, criar tudo do zero. Com o tempo, o cuidado foi amadurecendo, as rotinas foram sendo absorvidas e ajustadas, o que permitiu que alcançássemos o desempenho que temos hoje. Mas tudo foi construído com muito trabalho, de forma minuciosa e gradual. É importante lembrar que, até então, não existia uma UTI na região, e a maioria dos profissionais nunca havia atuado com pacientes críticos. Além disso, a região, como um todo é carente, tanto em número de profissionais quanto em formação voltada especificamente para terapia intensiva.

Hoje, com a UTI já instalada e funcionando, ainda que existam pontos a serem aprimorados, temos uma estrutura amadurecida, com rotinas consolidadas. A equipe atua de forma mais orgânica e fluida. Mas, sem dúvida, a maior dificuldade foi formar pessoas. E isso continua sendo uma missão. Como se trata de um processo contínuo, seguimos treinando, capacitando e integrando novos profissionais nesse cuidado.

AMIB – Muitos acham que UTIs de excelência são exclusivas da rede privada. O que essa conquista mostra sobre o potencial do SUS?

Vicente Castro – A UTI é feita de aparelhos, de equipamentos, de insumos. Mas é feita, principalmente, de gente. Isso mostra que, mesmo em serviços com limitações, como infelizmente ainda é o caso do nosso SUS, é possível realizar um trabalho de qualidade com profissionais bem formados, comprometidos e dispostos a fazer o melhor. É possível fazer muito, mesmo com pouco.

Essa experiência ajuda a quebrar um estigma, tanto por parte da população quanto entre nós mesmos, de que “aqui nunca vamos chegar aos pés de uma UTI de hospital privado”, por não termos os mesmos recursos. Na prática, provamos para nós mesmos, para a população e para a comunidade em geral que, sim, pessoas fazem toda a diferença. Gente bem formada, com empatia e com vontade de entregar o melhor, transforma um serviço.

Talvez até mais do que uma boa estrutura, gente é fundamental, afinal, trabalhamos com pessoas. Claro que estrutura é essencial. Só boa vontade não basta, e só tecnicismo também não resolve tudo. Mas, no fim das contas, o que diferencia muitos serviços públicos de alguns privados é a gestão. E gestão é, acima de tudo, gestão de pessoas.

AMIB – Agora, voltando os olhos para o lado pessoal, o que te inspira na medicina intensiva?

Vicente Castro – Muitos pacientes chegam à UTI por um fio, em estado extremamente grave. Então, presenciar essa virada, essa segunda chance de viver, é algo profundamente inspirador. Dar às pessoas essa possibilidade de continuar, de retomar sua vida, seus planos. Isso é grandioso.

Do ponto de vista técnico, a medicina intensiva também me inspira muito. É uma especialidade direta, com base científica sólida, muito estudo envolvido, protocolos bem definidos. Existe muita ciência por trás, e isso tudo se traduz em resultados concretos, muitas vezes rápidos e visíveis. Essa junção entre técnica, ciência e impacto humano é algo que me move como intensivista. Cada história é única, e ver a recuperação de um paciente é sempre algo especial de se acompanhar.

AMIB – Como você vê o futuro da medicina intensiva no Brasil? O que ainda precisa mudar, e o que não pode ser perdido?

Vicente Castro – O futuro da medicina intensiva no Brasil me parece bastante promissor, especialmente porque estamos sendo mais vistos. E, ao sermos mais vistos, também estamos sendo mais valorizados, o que é fundamental para a especialidade.

É exatamente isso que precisamos continuar fazendo: mostrar o que fazemos. Porque todo mundo sabe o que o cardiologista faz, mas nem sempre sabem o que faz um intensivista, mesmo sendo um trabalho absolutamente essencial. Felizmente, isso tem mudado. As pessoas estão começando a entender melhor o papel do médico intensivista, a importância e a complexidade do nosso trabalho. E isso, para mim, é muito promissor.