A qualidade de Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) no Brasil não é unanimidade entre os médicos que atuam nestes serviços. Apesar de que, na média, os indicadores são positivos, há distorções significativas na avaliação dos profissionais a respeito desse tipo de atendimento nas redes do Sistema Único de Saúde (SUS) e particular, que inclui hospitais vinculados a planos de saúde. Na maioria das vezes, as notas positivas são duas vezes maiores nas unidades privadas do que nas públicas. Já as notas negativas, chegam a ser até quatro vezes maiores nas unidades públicas com relação às privadas.

Essa diferença foi expressa por 2.338 médicos que atuam nesta assistência de alta complexidade que foram ouvidos dentro do Inquérito Nacional sobre a Força de Trabalho Médica nas UTIs Brasileiras, realizado pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB), com o apoio do Conselho Federal de Medicina (CFM). Eles responderam questionário no qual deram notas de 0 a 5 para itens considerados essenciais ao funcionamento das unidades, como infraestrutura, disponibilidade de leitos e medicamentos, nível de especialização da equipe, fluxos de paciente, protocolos, entre outros.

Analisadas em bloco, essas menções ajudam a visualizar os problemas que afetam o atendimento a partir da ótica de quem é responsável pelo cuidado dos pacientes graves. Para a AMIB, os resultados reforçam a necessidade de que políticas públicas de saúde tratem a estruturação das UTIs como prioridade em múltiplos aspectos, e não apenas como expansão do número de leitos.

“A diferença da percepção entre os médicos dos setores público e privado tem origem na capacidade de resposta que as equipes encontram para atender um paciente crítico. Isso envolve leito disponível, mas também remédios em mãos e protocolos bem estabelecidos para cada momento da assistência, entre outros itens. A redução dessa desigualdade estrutural precisa entrar na agenda de prioridades da saúde pública brasileira”, enfatiza Cristiano Franke, presidente da AMIB.

Diagnóstico – A entidade pretende levar o diagnóstico a gestores públicos e privados, bem como a autoridades de áreas de fiscalização e controle, além de defender o atendimento às recomendações feitas pelo Inquérito Nacional sobre a Força de Trabalho Médica das UTIs Brasileiras. Eventuais mudanças terão impacto em 43.901 leitos de UTI distribuídos pelo país, sendo 34.927 destinados a adultos e 8.974 à pediatria e neonatologia, conforme cálculo da AMIB.

Na análise dos números apurados fica evidente a diferença detectada entre os serviços. Por exemplo, apenas 22,7% dos médicos entrevistados consideram que a rede de UTIs do Sistema Único de Saúde (SUS) possui disponibilidade totalmente adequada de medicamentos essenciais ao manejo dos pacientes. Esse índice sobe para 57,7% com relação aos serviços particulares ou vinculados aos planos de saúde.

Por outro lado, quando analisadas as avaliações negativas, a situação da oferta de medicamentos nos serviços da rede pública foi avaliada como inadequada ou totalmente inadequada por 16,1% dos médicos. No setor privado o percentual cai para 3,8%.

A tendência se mantém na avaliação sobre a suficiência de leitos. Um índice de 24,1% dos entrevistados atribuiu a nota máxima aos serviços públicos de UTI em relação a esse quesito. Já com respeito às unidades privadas ou de planos de saúde, a avaliação foi favorável para 51,4%. No caso de disponibilidade e acesso a protocolos de atendimento e de conduta clínica, a rede SUS recebeu nota máxima de 23,1% dos que participaram do inquérito, enquanto o setor privado ganhou avaliação superior de 40,2%.

Pela perspectiva das notas mais baixas (0, 1 e 2), 32,6% dos médicos avaliaram a disponibilidade de leitos no SUS ruim e 27,4% atribuíram as notas mínimas aos protocolos de atendimento. Na rede privada, essas avaliações mínimas foram dadas por 7,7% e 14,3% dos médicos respectivamente.

Esse padrão se repetiu em 12 dos 13 aspectos avaliados pelos profissionais que atuam em UTIs em 26 estados e no Distrito Federal. A única exceção, em que a percepção dos entrevistados foi bastante próxima, independentemente do segmento em que prestam serviços (público ou privado), foi em relação às tarefas administrativas e burocráticas.

A pesquisa também identificou disparidade na percepção sobre a presença de equipe multiprofissional especializada: 39,2% dos médicos avaliaram esse item com nota máxima no setor privado, contra 23% no setor público. Enquanto as notas mínimas foram atribuídas por 24,8% dos médicos para o setor público e por 13,8% para o privado.

Quanto à percepção sobre presença de enfermeiros com formação específica em terapia intensiva, a proporção positiva foi de 25,1% para o privado e 16,9% para o público. Já a negativa alcançou 37,2% para os serviços SUS e 26,4% para os serviços particulares ou de planos.   

“Não basta fazermos apenas o diagnóstico da diferença de condições entre as UTIs públicas e privadas brasileiras, é necessário traçar estratégias para agir e modificar esse cenário. O inquérito aponta claramente um caminho: investir em modernização das unidades públicas, com acesso equitativo a tecnologias de monitoramento e suporte à vida. Precisamos reduzir essa distância sem esperar que o paciente pague o preço”, afirma Franke.

Protocolo e burocracia – Além da infraestrutura física e composição das equipes multidisciplinares, o levantamento evidencia também uma lacuna entre os setores público e privado nos processos, protocolos e dinâmicas de trabalho.  Os fluxos de gerenciamento de pacientes entre os diferentes setores do hospital foram avaliados, no setor privado, com nota máxima por 26,5% dos médicos, mais que o dobro dos 11,1% registrados no setor público.

A interconsulta com especialistas seguiu padrão semelhante: 36,3% no privado contra 15,4% no público. Quanto à interação entre as equipes de diferentes áreas do hospital, a nota máxima foi de 30,7% dos médicos para o setor privado e de apenas 14,5% para o setor público. Por fim, em relação aos protocolos de passagem dos plantões, que garantem a continuidade do cuidado entre os turnos, 27,8% dos profissionais deram nota máxima para as unidades privadas. Nas unidades públicas, apenas 14,5% dos profissionais atribuíram o maior valor.

Para a AMIB, esses processos não são apenas uma rotina administrativa, eles funcionam como parte da estrutura assistencial da UTI, sustentando decisões rápidas e coordenadas diante de pacientes com múltiplas disfunções orgânicas, um dos principais traços que caracterizam o ambiente de terapia intensiva.

“Para além dos investimentos na infraestrutura e nos recursos humanos das UTIs, em especial da área pública, fica evidente a necessidade de se integrar a prática assistencial e padronizar protocolos clínicos. Digitalizar processos burocráticos, padronizar fluxos de informações e fortalecer a integração das equipes libera mais tempo dos profissionais de saúde para o cuidado com o paciente”, conclui Franke.  

Os resultados reforçam, de acordo com a AMIB, a necessidade de que políticas públicas de saúde tratem a estruturação das UTIs como prioridade orçamentária, e não apenas como expansão do número de leitos. A entidade pretende levar o diagnóstico a gestores públicos e autoridades de saúde como parte do conjunto de recomendações do Inquérito Nacional sobre a Força de Trabalho médica das UTIs Brasileiras.