Diante do aumento de pacientes diagnosticados com COVID-19 na segunda onda, é fundamental ter o entendimento do cenário em nível nacional, saber sobre a escassez de recursos e como está o nível de exaustão física e emocional do profissional que está na linha de frente do combate ao Coronavírus.
São Paulo, abril de 2021 – A Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB), em conjunto com outras sociedades e com o suporte da Federação Mundial de Cuidados Críticos e Intensivos (WFICC) acaba de concluir o levantamento sobre ponto de vista do profissional que está cuidando de pacientes diagnosticados com COVID-19 no Brasil e apresenta comparativo entre dois períodos: junho de 2020 e março de 2021.
As duas fases da pesquisa tiveram o objetivo de analisar as percepções e preocupações entre os profissionais de saúde brasileiros que cuidam de pacientes gravemente doentes diagnosticados com COVID-19. As pesquisas foram distribuídas por meio do cadastro e mídias sociais da Associação, com 41 perguntas (plataforma Redcap) para provedores no Brasil em junho de 2020 e em março de 2021. Ao todo, a pesquisa contou com 991 respondentes na fase 1 (junho de 2020) e 1.345 na fase 2 (março de 2021).
Quantidade de Profissionais
De acordo com o Conselho Federal de Medicina (CFM), em 2020, o país registrou mais de 500.000 médicos, para a população de 210 milhões de brasileiros. O médico titulado intensivista representa somente 1,6% dos 500 mil médicos do país, totalizando 8.239 titulados. 34% da amostra da pesquisa, em junho de 2020, enxergava que o número de médicos intensivistas era insuficiente. Esse número aumentou para 58% em março de 2021, evidenciando a falta desses profissionais. Com a piora da segunda onda da doença no país, o Sul, que apontava 25%, agora cresce para 69%. Ainda no sul do país, em 2020, 43% dos respondentes entendiam que a quantidade de enfermeiros também era insuficiente. Esse número cresceu para 79% em 2021, representando um crescimento de 36 pontos percentuais.





Leitos de UTI
Segundo recomendações da OMS e do Ministério da Saúde, a relação ideal de leitos de UTI é de 1 a 3 leitos para cada 10 mil habitantes, e o Brasil apresenta a proporção de 2,6 leitos (Dados ANS, CNES e IBGE 2021), o que, de forma consolidada, é satisfatório. Assim, o país soma 54.657 leitos. Porém a percepção de quem atuou na linha de frente durante a pandemia foi outra: na fase 1 da pesquisa, 32% da amostra afirmou que a quantidade de leitos era insuficiente. Esse número cresce para 78% na fase 2, enquanto dura a segunda onda da pandemia. Mais uma vez, o sul do país tem a maior distância de pontos entre os dois períodos: junho de 2020 mostra que 17% dos respondentes afirmavam que os leitos de UTI eram insuficientes. Março deste ano o número cresceu para 89%.


Exaustão Física e Emocional
Durante o pico da primeira onda da Pandemia causada pela COVID-19, 85% da amostra já apontava exaustão física e emocional. Agora, praticamente após um ano de pandemia, 90% afirma ver colegas cansados física e emocionalmente.
O que chama mais a atenção é que, em 2020 os números já eram altos: 77% no centro-oeste, 78% no norte, 85% no nordeste, 87% no sul e 86% no sudeste. Respectivamente, em 2021, os números crescem ainda mais: 88%, 78%, 90%, 94% e 90%. Isso mostra que a exaustão física e emocional foi frequente e continua sendo. O fator mais fortemente associado com a exaustão entre intensivistas foi o medo de levar a doença aos seus familiares. Cuidar de mais de 10 pacientes simultaneamente aumentou, em 50%, o risco de exaustão.

Equipamento/tratamento em escassez
Na fase 1 da pesquisa, 80% da amostra afirmou ter o equipamento para ventilação mecânica para todos os pacientes. Hoje, esse número baixou para 70%.
A disponibilidade de Cateter Nasal de Alto Fluxo também se mostra inferior: 28% em 2020 Vs. 21% em 2021.
Mas nem tudo é má notícia: equipamentos de proteção individual, conhecidos como EPI, faltam menos nas UTI. Durante o pico da primeira onda, quando perguntamos sobre o acesso insuficiente, 20% dos respondentes afirmavam falta de equipamento. Esse número baixa para 2021 com apenas 10%.



Para a Dra. Suzana Lobo, Diretora Presidente da AMIB, “o que mais preocupa é o alto número de casos de pacientes diagnosticados com COVID-19 que ainda se apresenta. E isso é devido ao descuido da população em relação ao distanciamento social e uso adequado de máscaras. Isso aumenta, e muito, a demanda por UTI, baixando ainda mais os estoques de medicamentos, equipamentos e o pior: aumenta a demanda do profissional intensivista que já está cansado há mais de um ano”.
A Diretoria Executiva da AMIB enxerga que, apesar da situação preocupante, há uma luz no fim do túnel que ilumina as vacinas. Apesar da baixa velocidade, o efeito da vacina já começa a ser sentida nas UTI com menos casos de idosos, acima de 80 anos, internados. “Cada vez mais, a população está sendo vacinada. Agora o importante, para quem tomou a primeira dose, é tomar a segunda e concluir essa etapa. Somente assim venceremos essa batalha”. Finaliza a Diretora Presidente.
Agradecimento especial, em nome da AMIBNet, para todas as Regionais AMIB e demais participantes. Sem a devida adesão à pesquisa, não seria possível a análise dos dados para este estudo.
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