Prevenir a perda de músculos deve fazer parte de uma rotina saudável, mas quando a internação ocorre, a correta realização de protocolo pode ajudar pacientes críticos a ter mais qualidade de vida ou ajudar a melhorar a qualidade de vida de pacientes críticos
Publicação: 30/04/2026
Muito mais do que um dia, uma semana ou um mês, a prevenção da sarcopenia, que é a perda progressiva dos músculos, ganha espaço entre as ações promovidas pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB). Tradicionalmente iniciada em julho, em referência ao Dia Mundial de Conscientização sobre a condição, celebrado no dia 4, a campanha se estende ao longo de todo o ano, com o objetivo de reforçar a importância do cuidado contínuo, longe de qualquer modismo.
A AMIB, desde 2024, realiza campanhas de conscientização voltadas tanto ao grande público, para conscientizar sobre o tema e estimular suas formas de prevenção, como para a comunidade médica. A ampliação do debate coloca luz sobre um problema silencioso e frequente, especialmente entre pacientes críticos. A perda de massa e força muscular pode atingir até 70% dos internados em unidades de terapia intensiva (UTI) já no momento da admissão, o que evidencia a necessidade de estratégias de prevenção e cuidado contínuo.
Segundo explica a médica intensivista e presidente do Comitê de Comunicação da AMIB, Cristiane Monte, em poucos dias de internação, a perda muscular pode se agravar de forma acelerada. Em entrevista ao portal da AMIB, ela explica como manter uma rotina com mais músculos e também como a mobilização precoce, mesmo durante a internação, pode contribuir para preservar a massa muscular, melhorar desfechos clínicos e garantir melhor qualidade de vida aos pacientes. Confira!
AMIB – Para começar, a sarcopenia, de forma geral, é a perda de músculos. Mas quando de fato a perda de massa muscular deve ser uma preocupação?
Cristiane Monte – A perda de massa muscular deve ser motivo de atenção quando começa a afetar a força, a mobilidade e a autonomia da pessoa. Em outras palavras, não é apenas o “tamanho” do músculo que importa, mas o impacto que essa perda traz para a vida diária. Dificuldade para levantar-se da cadeira, subir escadas, caminhar com segurança ou realizar tarefas simples já pode indicar que a perda muscular deixou de ser apenas um achado fisiológico do envelhecimento e passou a ter relevância clínica.
AMIB – Tem um percentual mínimo?
Cristiane Monte – Não existe um percentual mínimo universal que defina, sozinho, quando a perda muscular é preocupante. Isso porque a sarcopenia não é avaliada apenas pela quantidade de músculo, mas também pela força e pelo desempenho físico. Assim, pequenas perdas podem ser muito importantes em pessoas idosas, frágeis ou com doença crônica, enquanto a mesma redução pode ter menos impacto em um adulto jovem saudável. O que mais importa é o contexto clínico e funcional.
AMIB – E por que a massa muscular é tão importante?
Cristiane Monte – A massa muscular é importante porque o músculo não serve apenas para movimento. Ele também participa do metabolismo, ajuda no controle da glicose, funciona como reserva de proteína e contribui para a resposta do organismo em situações de estresse, como infecções, cirurgias e internações. Quando essa reserva é baixa, o corpo tem mais dificuldade para se recuperar e para manter a funcionalidade.
AMIB – Homens têm mais massa muscular, porém estão imunes à sarcopenia? É mais comum em mulheres? Tem um percentual?
Cristiane Monte – Homens não estão imunes à sarcopenia. Embora, em média, tenham mais massa muscular do que as mulheres, eles também podem desenvolver a condição com o envelhecimento, o sedentarismo, a desnutrição e as doenças crônicas. A sarcopenia pode ocorrer em ambos os sexos. O que muda é que as mulheres costumam ter menor massa muscular basal e podem apresentar maior vulnerabilidade em determinadas fases da vida, especialmente após a menopausa. Não há um percentual único que defina a prevalência em todos os contextos, porque isso varia conforme idade, população estudada e método de avaliação.
AMIB – Quando devemos começar a nos preocupar com a sarcopenia? Tem uma idade em que acende a luz amarela?
Cristiane Monte – A preocupação deve começar antes mesmo da velhice avançada. A sarcopenia é um processo progressivo e tende a se acelerar a partir da meia-idade, com maior atenção após os 50 ou 60 anos. A “luz amarela” acende quando surgem sinais como perda de força, redução da velocidade da marcha, maior dificuldade para atividades rotineiras, quedas frequentes ou perda de peso sem explicação. Quanto mais cedo esses sinais forem reconhecidos, melhor a chance de prevenção e intervenção.
AMIB – Como prevenir a sarcopenia?
Cristiane Monte – A prevenção da sarcopenia envolve principalmente atividade física regular e alimentação adequada. O exercício mais importante é o treino de força ou resistência, porque ele estimula diretamente a manutenção e o ganho de massa muscular. Caminhadas, bicicleta e outras atividades aeróbicas também ajudam, mas não substituem o fortalecimento muscular. Na alimentação, é essencial garantir ingestão adequada de proteínas ao longo do dia, além de energia suficiente. Em idosos ou pessoas com doenças crônicas, essa orientação precisa ser individualizada.
AMIB – Na velhice, quando é comum ter problemas de deglutição e até de dentição, tem estratégias para driblar essa situação?
Cristiane Monte – Sim. Quando há dificuldade para mastigar ou engolir, é possível adaptar a alimentação para preservar o estado nutricional e evitar perda muscular. Entre as estratégias estão usar preparações mais macias ou pastosas, fracionar as refeições, enriquecer os alimentos com proteína e calorias e, quando necessário, ajustar a consistência dos líquidos. Também é importante envolver equipe de nutrição, odontologia e fonoaudiologia, porque muitas vezes o problema não é apenas alimentar-se menos, mas não conseguir se alimentar de forma segura e suficiente.
AMIB – Qual a importância dos músculos na UTI? Como eles ajudam na recuperação?
Cristiane Monte – Na UTI, músculos mais preservados ajudam porque oferecem melhor reserva funcional para suportar o estresse da doença, da imobilidade e da inflamação. Isso facilita a reabilitação, reduz a fraqueza adquirida na UTI e aumenta a chance de recuperação funcional após a alta. Há estudos que associam melhor preservação muscular e mobilização precoce a melhores desfechos, incluindo menor tempo de ventilação mecânica e, em alguns casos, menor tempo de internação. Porém, não existe um percentual único de dias a menos que sirva para todos os pacientes, porque os resultados dependem da gravidade, da doença de base e das características de cada pessoa.
AMIB – Cada dia internado em uma UTI perde-se quantos por cento de massa muscular?
Cristiane Monte – Não existe um percentual fixo e universal de perda muscular por dia na UTI. A velocidade dessa perda varia muito conforme o quadro clínico, a presença de sepse, a sedação, o grau de imobilidade, a nutrição e as comorbidades. A perda pode ser rápida e clinicamente relevante já nos primeiros dias de internação, motivo pelo qual a prevenção precisa começar cedo.
AMIB – Como a sarcopenia está interligada com a mobilização precoce?
Cristiane Monte – A sarcopenia e a mobilização precoce estão diretamente relacionadas porque a imobilidade acelera a perda muscular. Quanto mais tempo o paciente permanece parado, maior a chance de atrofia, fraqueza e piora funcional. A mobilização precoce atua justamente para interromper esse ciclo, estimulando músculos, circulação, respiração e independência funcional desde o início da internação, sempre que clinicamente seguro.
AMIB – A mobilização precoce contribui para evitar o agravamento do paciente grave na UTI?
Cristiane Monte – A mobilização precoce contribui porque reduz os efeitos nocivos do repouso prolongado. Em vez de o paciente ficar completamente imobilizado, ele recebe estímulos motores graduais que ajudam a preservar força, coordenação, resistência e capacidade funcional. Isso diminui a fraqueza adquirida na UTI, favorece a recuperação e pode encurtar o processo de reabilitação. Em termos práticos, ela ajuda a evitar que o paciente saia da UTI ainda mais debilitado do que a doença por si só já o deixou.
AMIB – Por que a mobilização precoce é importante?
Cristiane Monte – Ela é importante porque transforma a internação em uma oportunidade de preservação funcional, e não apenas em um período de espera pela melhora clínica. O objetivo não é só sobreviver à doença aguda, mas sobreviver com menos perda de autonomia e maior chance de retorno às atividades. A mobilização precoce ajuda a reduzir complicações relacionadas à imobilidade, melhora a recuperação muscular e favorece um desfecho mais funcional.
AMIB – Em que a mobilização precoce consiste e como pode ser aplicada como técnica assistencial? E quem pode aplicá-la?
Cristiane Monte – A mobilização precoce consiste em iniciar movimentos e mudanças posturais o quanto antes, conforme a condição clínica do paciente. Isso pode incluir exercícios passivos, ativos ou assistidos, sedestação, ortostatismo, marcha assistida e progressão gradual conforme a tolerância. Como técnica assistencial, ela deve ser aplicada por equipe multiprofissional capacitada, com participação de fisioterapia, enfermagem e medicina, entre outros profissionais conforme a necessidade. O mais importante é que a intervenção seja planejada e segura.
AMIB – É aplicável a todo paciente?
Cristiane Monte – Não. A mobilização precoce não é indicada de forma indiscriminada para todos os pacientes. Ela precisa ser avaliada caso a caso, levando em conta estabilidade hemodinâmica, respiratória, neurológica e o risco de eventos adversos. Em algumas situações, a mobilização pode ser adiada ou adaptada. O princípio é mobilizar cedo, mas sempre com segurança.
AMIB – Ao aplicar a mobilização precoce, aumenta a chance de preservar a funcionalidade global do corpo, aumentando também a possibilidade de voltar para casa andando ou com suporte?
Cristiane Monte – Sim. A mobilização precoce aumenta a chance de preservar a funcionalidade global porque ajuda o paciente a perder menos força, menos equilíbrio e menos capacidade de locomoção durante a internação. Com isso, cresce a probabilidade de ele sair da UTI mais independente, seja andando sozinho, seja com algum suporte. Em outras palavras, ela não atua apenas na sobrevida, mas na qualidade da recuperação.